Aqui estou, meu neto, sentado na mesma cadeira manca, que abana como eu gosto.
Observo-te a entrar e a sair, o teu cumprimento define o teu dia. Um grande Ola! Um murmurar, as vezes bates com a porta outros nem dizes nada, apesar do carinho, assim sei de tudo e nunca nada te pergunto.
Vejo-te a ver passar os dias, tão ocupado em vir a ser um grande Homem, essa tendência para um abismo, um pânico de envelhecer (tal como eu tinha) de querer consumir o mundo numa grande refeição matinal e a consequente indigestão de factos, nem te deixa digerir o que comeste ontem.
Também eu não cometi esse erro de deixar passar a vida assim as três pancadas. É esse medo que nos mantém acordados e dispersos ainda que agoniados, e hoje não sou um velho amargurado.
Não penses que sabes o que vou dizer, pois além de dores e saudades do passado cruel, esta carroça cansada traz no corpo uma habituação instantânea da calma e paz.
Hoje não penso que falhei, mas sim quanto tempo demorei eu a aprender..Tu pensas aos meses quanto muito ao ano e eu em décadas, e nem suponhas que o meu raciocínio emocional é lento, não menino! É que entre o problema, depois pânico, stress, agonia, reflexão e calma, eu já só preciso do primeiro e do último, que me facilita muita coisa.
Entraste com as botas cheias de terra e se soubesses que a vida foi como o passeio que deste pela mata e o chegar a casa, ao fim da vida também, nos traz uma confiança, que o único pânico que tenho, já não são as penas, mas sim o vácuo e o não ser.
Nada te digo, sabes como é, aos 50 quer-se mostrar tudo o que se aprendeu, aos 80 que tenho , vou passar por chato, e por mais que saiba nem tenho vontade de te contar o fim do filme da vida (acho que será mais engraçado veres por ti...) e assim te vejo a entrar e a sair, tão amargurado com o passar dos dias e nem tu sabes que essa é que é a essência.
3 comentários:
Lindo...
CR
Que ideia interessante....
adoro as postagens me adiciona: boblend@hotmail.com
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