Horas tinham passado quando ouvi os seus passos,sob a relva que agora sentia que tinha amolecido talvez com a chuva que não ouvi cair. Conhecia de cor esses movimentos, mesmo de olhos fechados. Ele aproximou-se, pôs-me a mão no ombro. Senti aquele calor duma intimidade e confiança de anos de confissões . Virei-me. Senti-lhe o gelo, nos olhos azuis, atrás daquele cabelo preto que tantas vezes eu atacara com qualquer tesoura. Ouvi o instante assombroso que antecede a queda, porém desmenti apressadamente o pressentimento pelo seu carácter de pânico. O que seria mais, se não a conjectura dos meus próprios anseios? Nada acontece por acaso. Por erosão, essa rocha que era a minha mais querida amizade, tinha vindo a tornar-se pó, pelos ventos que minha própria mente tinha criado.
- Não posso mais. Tens que te cuidar sozinha. Vou-me embora.
Os olhos inchados de calor,reavivaram aquele sentimento de abandono, entre o abano constante e ritmado que meu corpo subitamente tinha ganho. Todos os padrões de salvamento que tinha criado ao longo dos anos, não me pareciam válidos. Nem me atirava para o chão a chorar, nem representava a fortaleza, nem a piedade de mim. Nada!Via as cenas de como iria passar este momento. Não. Não me apetecia nenhuma delas, menos ainda a compaixão. Num rasgo de luz, como uma ideia incandescente, lembrei-me: Nada dura sempre! Um dia passará.
Mas sim iria durar. E mesmo depois de ter entendido, que só a lei causa-efeito funciona correctamente, não vi, pela penumbra de sentimentos e principalmente desejos, de todo o mais forte de se ser amado, o porquê dessa causa.
Então repeti, uma vez mais, as palavras que iam e vinham todos estes anos, que soavam com mais ou menos relevo, em qualquer altura, até nas mais felizes: - Não posso. Tens que cuidar de ti sozinha. Vou-me embora.
E assim me abandonei.
sábado, 28 de abril de 2007
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